CirqueBrasil.com fez uma entrevista com Marcos Casuo, o brasileiro que interpreta um palhao no espetculo Alegra. Nesta entrevista Marcos Casuo mostra que no apenas um palhao ou ator, mas um verdadeiro artista com um excelente corao.
Confira a entrevista.
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CirqueBrasil.com: Voc entrou no Cirque du Soleil aps sair do Grande Circo Popular do Brasil. O que voc fazia antes de ingressar no Grande Circo Popular do Brasil?
Marcos: Eu tive uma infncia como qualquer criana ou adolescente. Nasci em So Paulo, fui criado pela minha av desde pequeno. Eu acho que fui para a casa da minha av quando tinha mais ou menos sete ou nove anos. Eu era um pouco arteiro, eu era uma criana um pouco mais especial. Fiquei um bom tempo em um colgio interno, de padres, eu imaginava que talvez pelas dificuldades que minha me tinha de me criar e de formar uma famlia. Quem veio me tirar de l foi a minha av, junto do meu pai, mas eu j no aguentava mais ficar l. Eu aprendia muita coisa, mas era como se fosse uma priso e eu odeio isso: estar enjaulado ou estar com limites para as coisas.
Voltei para So Paulo e tive alguns problemas referente minha posse. Em So Paulo que tive quase toda minha educao, e tudo que eu fao reflexo dos meus pais, especialmente da minha av, e dos meus amigos. Graas a Deus eu sempre tive uma ndole boa e as minhas travessuras no eram ms, eram travessuras de criana e as pessoas queriam estar ao meu lado pois gostavam de dar risada. Sempre fui assim desde pequeno.
Depois que cresci fui trabalhar em uma empresa chamada Dixie Lalekla. Ali trabalhei como office boy, e mesmo assim nas minhas horas vagas eu ia para o ltimo andar, e ali comeava a treinar break dance nas minhas horas de almoo. Depois deste trabalho eu tambm trabalhei como mecnico, em um local prximo de casa. Eu morava na Zona Sul, e ali tudo prximo.
Eu s vezes tentava tirar minha avozinha de l, mas hoje eu entendo. O meu bairro para mim o melhor lugar do mundo porqu a minha av tem a farmcia, o supermercado, o aougue e tudo que necessita no meu bairro. Tudo nas esquinas e no no centro da cidade. Minha av tem 79 anos e pode caminhar at a esquina para fazer as coisas dela. Hoje eu entendo, e ela super feliz. Alm disso, todos os meus amigos esto ali e a minha av recebe visitas de todos os meus amigos.
Eu tive uma vida normal, apesar de ter nascido palhao, de sempre estar contando piadas, de sempre fazer as coisas alegres. No importa o tipo de trabalho, no importa o servio que eu estava fazendo: eu sempre levei tudo na esportiva, na brincadeira. como o meu amigo Oscar, que o grande palhao Chupetinha que mora em Londrina, falou para mim: voc nasceu palhao. Muitos dos meus amigos falavam isso, e desde criana eu tive como apelido palhao. Ento toda essa trajetria, minhas amizades, meu trabalho, o conflito comigo mesmo entre a realidade, os meus sonhos e o meu trabalho me levou a isso que eu sou.
Quando eu comecei a danar o break dance no estoque da Dixie Lalekla, ou quando eu trabalhava de mecnico e o pessoal ia almoar eu colocava um papelo no cho e comeava a treinar. E eu comecei a treinar tambm capoeira no mesmo perodo do break dance. Depois de alguns anos adquiri uma certa tcnica e uma certa evoluo na minha dana, tanto na capoeira e no break dance, e comecei a assimilar as duas coisas.
Uma vez caiu a ficha: eu estava assistindo s olimpadas e falei comigo mesmo como acrobacia uma coisa fantstica! Ento comecei a trabalhar o meu corpo, comecei a aprender ginstica olmpica e a assimilar a capoeira, o break dance e a ginstica olmpica. Ento comecei a ter aulas de teatro e eu sempre fazia o tonto. No por falta de inteligncia, era o personagem que as pessoas me incentivavam a fazer. Voc desenrolado, voc no tem vergonha, ningum quer fazer isso… Todos queriam fazer um papel mais srio ou de gal, ou de namoradinho da menininha ou at mesmo de vilo. Ento eu sempre fazia o lado mais cmico da histria. Passaram-se todos estes anos e eu pedi muito a Deus, eu honro meu paizinho l de cima, para que eu trabalhasse com teatro e com o pblico. Pedi muito a Deus para me dar o dom da arte, sem saber que ele j tinha me dado desde o dia em que nasci. Eu j nasci com o narizinho vermelho, o pzinho meio grande… (Risos) E graas Deus e fora de vontade eu consegui.
Tem uma frase que eu digo muito que acredite no poder da sua mente. Tudo possvel, voc precisa ter o gosto do prazer de querer fazer algo. Nada por acaso.
Depois disso tudo eu sa de casa, com 17 anos, tive que parar de estudar por um certo perodo e eu lembro que meus pais ficaram muito tristes com isso. Mas eles me entenderam de certa forma e meu pai tinha uma cabea bacana e sempre falava comigo ou voc trabalha ou voc estuda. Ento eu falei com ele pai, voc me desculpa mas eu tenho que dar um tempinho nos meus estudos e um dia voltarei para casa e vocs estaro muito orgulhosos de mim.
Fui para uma cidade chamda So Carlos e l comeou um processo de adaptao, pois eu estava comeando algo em uma cidade nova na qual nunca estive. Eu teria de fazer amizades, voltar a estudar, procurar as minhas coisas… Mas me adaptei muito rpido e foi l que conheci o Grande Circo Popular do Brasil e foi l que minha vida comeou a mudar, graas aos amigos os quais ainda tenho contato, graas ao Marcos Frota que me ajudou muito com as palavras. No com tcnicas, mas com sabedorias. O Marcos consagrado h anos no s pela TV Globo mas pelas peas de teatro que j fez, e graas a ele tambm conheci muitos outros atores e muitos me davam toques que para mim era algo iniciante, mas eu tinha que saber aceitar receber mesmo no tendo a maturidade suficiente para saber ingerir o que me diziam para dentro de mim.
Tem um grande amigo meu que hoje faz parte de um plano superior, o Luis Cavalheiro, que me dizia coisas que na poca eu no conseguia entender, mas h alguns anos atrs consegui ver que era a verdade, que para aceitar o dom da arte voc precisa estar maduro. Precisa estar consciente e aceitar que no uma estupidez o que voc vai fazer. Hoje em dia o povo confunde a comicidade, confunde o ser palhao com o ser ridculo, e confunde o ridculo com o engraado. Se vestir de forma ridcula uma coisa, fazer algo ridculo outra.
O palhao trs a risada, tem o momento certo para tocar cada pessoa para que ria. Se voc no consegue tocar na alma de criana de cada pessoa, no importa a idade, eles no vo rir, pois a risada uma coisa espontnea. Para voc rir voc no tem que se sentir bem, no importa o seu estado de humor. O que importa a hora da piada, o momento certo da brincadeira. Ento isso uma coisa delicada, e eu aprendi essas coisas no Grande Circo Popular do Brasil, junto dos meus amigos circenses.
Com toda essa trajetria, quando cheguei ao Grande Circo Popular do Brasil eu ainda no estava maduro para absorver tudo. Eu queria muita coisa, mas tudo tem seu tempo.
CirqueBrasil.com: Como foi que voc saiu do Grande Circo Popular do Brasil e ingressou no Cirque du Soleil? S voc acreditava que conseguiria, ou as pessoas te incentivavam?
Marcos: O Grande Circo Popular do Brasil foi uma faculdade e como em todas as outras faculdades voc procura adquirir mais conhecimento por fora. Ento, trabalhar esses oito, nove anos no Grande Circo Popular do Brasil foi um degrau para o Cirque du Soleil. A minha vida o circo, eu vivo por esta aula milenar tanto que eu apio, dou workshops, palestras e no s incentivo ao circo mas incentivo a cada ser humano buscar o que querem. No importa se o circo, se o teatro, se querem ser mdicos… s vezes os tipos de palestras que fao so para encorajar o ser humano, o poder de sua mente. Esta a minha meta.
Depois de ter conhecido o circo, de ter conhecido algumas pessoas do Cirque du Soleil e ter mantido contato, de ter assistido um VHS no Jardins eu pensei uau, o Cirque du Soleil, que fantstico! Mas antes de chegar ao Soleil muitos dos meus amigos brincavam comigo, tiravam uma onda, mas tudo normal.
Na minha opinio, mais fcil o ser humano se colocar pra baixo do que para cima e isso normal. Aconteceu comigo e vive acontecendo. Recebo elogios de tudo que fao desde o princpio da minha carreira e eu nunca estou feliz. Eu no consigo ver o sucesso que me dizem. No consigo me ver como um bom palhao, um bom cmico… Eu chego a pensar como eles riem disso? Eu no dou risada do que fao. Eu consigo ver uma expresso corporal bacana, mas no consigo ver a graa que todo mundo consegue enxergar. Eu consigo ver a criana dentro de mim, mas no consigo ver a graa do ato. Ento eu tento me lapidar nisso, nos pequenos detalhes. Ento, onde est a risa eu acho que a piada est ali, ento onde eu trabalho.
O humor universal, a risa universal. J o palhao j no to universal, mas multicultural. Por exemplo, na Inglaterra eles gostam do stand up comedy. Em Londres trabalhamos no Royal Albert Hall, fazendo espetculos para 5 mil pessoas e a crtica nos recebeu muito bem, nos demos muito bem com as mesmas comicidades que a gente faz aqui. Foi bacana receber o prncipe e outras pessoas famosas nos dando parabns. A gente foi um sucesso l, graas a Deus.
Isso tem um valor para mim. Mas mesmo olhando o DVD que gravado nos espetculos todos os dias eu penso como eles gostaram disso? Eu me ponho para baixo tambm. Mas eu sei que funciona, pois eu tenho o resultado do pblico. Os meus amigos e as pessoas do mundo todo gostam do que eu fao, do que a gente est fazendo. Eu sou muito pick, pick-n-up, uma pessoa muito detalhista, principalmente na comicidade.
O gancho de tudo que j fiz, workshops, break dance, aulas de teatro, as leituras que sempre fao sobre teatro e interpretao foi o step para o Cirque du Soleil. O Marcos Frota me dizia voc est pronto para o Cirque du Soleil, mas eu no me via no Cirque du Soleil., tanto que deixei de fazer vrias outras audies porqu no achava que estava pronto para isso.
Os meus amigos achavam que eu estava, mas para mim eu no estava. Eu nunca tinha assistido um espetculo ao vivo, s no VHS, e na poca eu pensava que tudo era perfeito, que nunca erravam, e no havia cado a ficha que muito era edio de imagem. Ao vivo at melhor, mas so seres humanos. s vezes acontece de errarem nos espetculos, e o melhor de quando erra que quando faz de novo melhor ainda, recebe trs ou quatro vezes mais aplausos.
Depois de um tempo acabei falando para mim mesmo estou pronto. isso que eu quero. Eu carreguei o seguinte comigo: Um dia eu vou estar l. Eu acreditei nisso.
Ento eu posso dizer cuidado com o que voc fala, porqu a lngua, a palavra tem sua fora. At nos momentos de raiva, de discusso, voc deve pensar se voc est dizendo o que quer dizer para a pessoa. At em outros momentos voc tem que saber se voc realmente pensa isso, ou est falando para a pessoa pra agradar. Voc tem que tomar cuidado porqu a boca tem a sua magia, tem poder.
Naquele momento senti que um dia eu estaria ali. isso que eu quero. E foi quando a magia aconteceu, e hoje estou aonde falei que estaria, no Cirque du Soleil e no show que eu mais gostava, que o Alegra.
A audio foi no Rio de Janeiro, conversei com a Alice de Castro, que estava encarregada disso. A Alice tem o circo na vida dela e eu acho que ela vive pra isso, uma pessoa que se pode ajudar, ela vai. Se ela puder fazer algo pra te adiantar, ela vai fazer dentro do espao dela. Agradeo muito a ela por ter me dado a oportunidade e ao Cirque du Soleil por encontrar pessoas bacanas como ela.
CirqueBrasil.com: No Cirque du Soleil voc entrou diretamente no Alegra, mas como port do russian bars. Como se tornou palhao?
Marcos: A audio, em 2001, foi um processo legal, foi uma das audies mais diferentes que j participei. Antes desta audio eu tinha feito uma para um grupo de Amsterdam que trabalha com teatro, dana e circo, acho que uns 5 dias antes e passei. Eu tambm estava fazendo um teste na globo para a novela Vamp, para o papel de vampiros que faziam acrobacias.
Depois de uma semana chegaram os contratos e o teste da Globo no tinha dado certo. Chegou primeiro o contrato de Amsterdan que eu j tinha praticamente assinado e s faltava enviar, quando eu estava voltando para casa e bati meu carro. O telefone tocou e pensei que fosse um amigo meu me passando um trote falando que era do Cirque du Soleil.
Depois voltei para casa, estava na beira da piscina e o telefone tocou de novo e era uma pessoa com um sotaque bem carregado tentando falar portugus e eu achei que fosse uma amiga minha, a Bia, passando um trote. Depois a ficha caiu quando falaram s um minuto. Aqui do Cirque du Soleil e queremos contratar voc pra trabalhar com a gente. No se mova porqu a ligao est horrvel, e eu fiquei em uma posio muito chata (para o telefone no falhar) e tremia muito. Foi quando conversei com o encarregado pela contratao dos artistas e falou que queria que eu fosse trabalhar com eles para comear no Mxico e estrearia no ms de novembro, e eu estaria que estar em Montreal em junho. Eu falei que estava tudo perfeito.
Falaram vamos conversar sobre o dinheiro, e eu falei a gente conversa sobre dinheiro depois, me manda o contrato que eu assino agora. Desliguei e em questo de minutos chegava o contrato por fax para mim. O outro contrato que eu havia assinado rasguei e liguei para o pessoal falando que no iria dar, pois assinei contrato com outra firma.
Foi assim que tudo comeou, que comeou minha fase de crescimento, quando adquiri mais conhecimento no como palhao, mas como acrobata. Eu fazia o russian bars e ali sim aprendi muita coisa. Aprendi muita tcnica em uma coisa que eu nunca havia, aprendi a falar russo, aprendi a falar com o pessoal, conheci a cultura russa. A primeira lngua que aprendi l foi o russo no pelo Cirque, mas por mim. Eu trabalhava com 11 russos. Mas dentro do Cirque a prioridade o ingls, que eu aprendi depois.
Hoje estou no Cirque du Soleil, no espetculo Alegra, e graas ao Cirque eu aprendi muita coisa que envolve a cultura de todos os pases. Graas a Deus aprendi meu ingls, meu espanhol, meu russo e falo italiano. Meu portugus ainda est um pouco bagunado, pois apesar de eu estar no Brasil eu chego l e a lngua oficial o ingls.
Fiquei seis anos fora e estou voltando para mostrar para o pblico brasileiro o que eu sei, o que aprendi. Essa convivncia toda em no Cirque du Soleil me deu uma carga muito bacana, aprendi muitas coisas e eu gostaria aos poucos, em cada entrevista que dou, de mostrar um pouco deste sonho. Para mim no mais sonho, uma realidade, mas j foi um sonho. Mas um sonho para muitos dos brasileiros que visitam o cirquebrasil.com.
como um ator ir trabalhar em Hollywood. Para um circense trabalhar no Cirque du Soleil a mesma comparao, uma coisa bacana para a carreira. Isso que o gostoso, o prazer de voc vir construindo algo. Todos ns comeamos do zero, comeamos a engatinhar, ficar de p, se equilibrar, caminhar e a escrever nossa pgina a cada dia. Dependendo do que voc escolher como profisso a meta no o topo, mas construir. E depois que construir, manter.
Eu estava comentando com o Marcos Frota que veio me assistir no Alegra sobre as mesmas coisas. O difcil no chegar ao topo, se manter ali em cima com a mesma qualidade, com a mesma sabedoria e espiritualidade e saber manter quem voc . Com tanto acesso mdia, aos jornais, televiso, pblico, tietagem, com a facilidade para voc conhecer pessoas famosas, se voc no tiver maturidade pode vir a fazer o mal. E isso pode ser ruim para voc, ter umas amizades mais ou menos, talvez aquele amigo com quem voc cresceu e jogou bola na rua de terra voc venha a brecar. No que isso seja o estrelismo, mas tem que estar preparado para tudo isso. O Marcos Frota um grande amigo meu, o bacana que ele j foi meu patro tambm. Ento o bacana no esquecer de onde voc veio, das suas origens. Os meus amigos de infncia so os mesmos que vm me visitar, que me ligam noite. Eu saio com eles, vou jantar, eu no tenho essas diferenas. Eu preservo minhas amizades desde a infncia, de trabalho, da Dixie Lalekla, da poca como mecnico, at hoje. E as pessoas que vo passando ao meu redor pelo mundo. Essa uma das minhas ideologias.
Deste mundo a gente no carrega nada, tudo que a gente v material. O que faz a pessoa evoluir o lado espiritual. a solidariedade, os projetos sociais, isso bacana. Eu me vejo como uma chava, como um hilo condutor para que eu possa fazer isso agora. Eu sempre fui ligado a projetos sociais. Eu me vejo na obrigao de passar todo o conhecimento que eu tenho, comeando a dar workshops, palestras e que as pessoas que vo aos meus workshops e palestras escolham o que vo ver. Se uma palestra de auto-ajuda, que seja de auto-ajuda. Que seja de mostrar que cada um de ns tenha algo cmico, que seja isso. Mas a inteno colocar uma aguinha na semente de cada um. Todos ns temos essa semente, s que s vezes est faltando essa aguinha para aflorar e poder fazer o que quer.
CirqueBrasil.com: Desde que o Alegra chegou ao Brasil o espetculo j tem se renovado. Por exemplo, com a entrada da nova cantora Malika, com novo salto no russian bars, o ato dos palhaos que s vezes tem o balde de pipoca na cabea do visitante teimoso, etc. O nmero dos palhaos mostrar novidades at o trmino da temporada brasileira?
Marcos: Estamos criando mais dois nmeros que talvez se encaixem na proposta do Cirque du Soleil, como os outros que fiz e que esto no Alegra. A gente tem a moto, a stira do russian bars, o cabalito e o pequeno e o grande avio, que na verdade o final da moto.
Em toda cidade a gente muda poucas coisas. So pequenos detalhes que eu acho que mesmo a olho n voc no consegue notar, porqu o contexto o mesmo. Ento, os palhaos tem o mesmo contexto. O que muda a energia e a forma de fazer a mesma histria. Em cada espetculo por mais que o contexto seja o mesmo, a energia, a forma de brincar e at mesmo a improvisao diferente.
s vezes rola a pipoca, s vezes rola a bolsa… A gente tem muitas opes e ferramentas para brincar.
CirqueBrasil.com: Falando de improvisao, em algum momento em algum dos nmeros que tm a participao da platia alguma vtima agiu de forma diferente que chegou a te marcar ou a te cativar?
Marcos: Todos os dias, em todos os espetculos, cada pessoa que eu levo ao palco me cativa. Sempre diferente, sempre acontece alguma coisa que a gente no est preparado e acaba aprendendo algo. Por isso, muito obrigado a todas as vtimas!
Tem a dificuldade de deixar a pessoa calma, e tambm tem a dificuldade com a pessoa que no calma, que no tmida, que desinibida e que gosta de aparecer o que outro problema para a gente. Tem a outra pessoa que est machucada e quer te mostrar isso de alguma forma. Todos os tipos de louco, no bom sentido, dividem o palco com a gente.
J passamos por vrias e vrias situaes nicas. Estes anos todos trabalhando com o circo me permitiu adquirir conhecimento para poder costurar e mostrar que quem est em evidncia ali no somos ns, a pessoa escolhida, o protagonista deixou de ser o palhao e passou a ser a pessoa. A partir do momento em que a pessoa percebeu isso, ela quer aparecer e a gente tem que ter a maneira para costurar e mostrar calma, no bem assim, se no a gente acaba perdendo o pblico. E isso pode ser um desastre e no isso o que a gente quer.
difcil explicar porqu s quem realmente precisa do pblico pra fazer uma brincadeira sabe o que estou dizendo. No tem nada marcado. A partir do momento em que escolhemos algum para dividir o palco com a gente, a gente no sabe o que vai acontecer. um bazinho mgico e a partir do momento que a gente abre este ba a gente no sabe o que vai acontecer.
Eu relaxo porqu a qualidade de um bom ator, de um bom palhao, ser espontneo. Quando voc espontneo no importa o que voc vai fazer, mas vai funcionar bem. No nada forado, no nada que voc est tentando. Quando voc est sendo espontneo, por mais que voc no seja o que voc est fazendo, voc est vivendo aquilo.
O segredo de tudo ser espontneo. Quando escolhemos algem para a brincadeira, importante que a pessoa sinta isso: olha, este um momento nosso. Esquea das quase trs mil pessoas que esto te assistindo e a partir de agora vamos brincar.
Quando vem algum ao palco e a pessoa no est sendo espontnea, ou por nervosismo ou medo alguns chegam a tremer ou ainda quem est ali querendo aparecer, acaba atropelando o contexto mas a gente tem ferramentas e conhecimentos para tirar proveito da pessoa que quer aparecer e tambm da pessoa que est morrendo de medo. A, funciona…
CirqueBrasil.com: Aproveitando o contexto da conversa, o que acontece com as fotos tiradas no La Barita?
Marcos: A princpio, quando criei o nmero, no havia esta foto. Depois de um tempo eu pensava que faltava algo ali, e eu achava que tirar uma foto era uma deixa muito fcil para o pblico rir. Eu gostaria de colocar a fotografia, mas no sabia como sem ser algo fcil, sem ter um hilo condutor.
Foi quando caiu a ficha que o protagonista ali a vtima, e se a gente sabe que ele a estrela do nosso nmero, faz uma participao especial, entrou a fotografia. bater a foto para marcar o momento entre o palhao e algum do pblico que a verdadeira estrela.
No princpio a foto era real, com uma daquelas mquinas que custam R$1,99. Eu cheguei a revelar algumas fotos para ver como ficavam, mas as fotos eram as mesmas. A mesma posio (Marcos faz a pose) com pessoas diferentes.
Hoje em dia a mquina que eu tenho a mesma de R$1,99 s que no tem filme. Eu reciclei a mquina, abri e fiz uma gambiarra… Esta a vantagem do palhao. Eu gosto de trabalhar com coisas baratas, com coisas simples.
A foto foi feita, e est na mente de cada um. No existe um filme material, mas um filme na mente de cada um. A pessoa que tirou a foto pode pensar tirei uma foto com ele, ser que vou conseguir? Mas na verdade j tem a foto, s no a tem em matria. Realmente a foto existe, no momento de cada um.
Poderia at ser um souvenir, mas alm de tirar a foto teria que esperar secar… E a gente no quer prolongar ainda mais o nmero. Este nmero estreou no Japo, e este nmero tinha 6 minutos de durao. Hoje tem 11. So 11 minutos, mas parece que so 3. Eu estou sempre cortando coisas, enxugando o mximo possvel, mas difcil.
Eu sou o contrrio de outros palhaos. Outros palhaos gostam de alongar o mximo possvel, sugar o mximo de risada. No, eu gosto de dar aos poucos, deixar com gostinho de quero mais. O resultado disso eu sinto quando acaba o espetculo, quando a gente passa com a cama dando tchau e ouve aquela gritaria. Isso pra mim o resto de foras, de energia que eles esto passando pra gente. Toma, este o gostinho que eu quero mais agora estamos passando pra vocs. Esse o bacana.
CirqueBrasil.com: Desde que foi noticiado que um brasileiro, que voc, faz parte do Alegra, a procura tanto por artes circenses quanto pelo Cirque du Soleil cresceu no Brasil. Voc j tinha noo disso?
Marcos: J. Como falei agora h pouco, eu me vejo um hilo. Estou tendo a sorte de ser o nico brasileiro no Alegra e o nico brasileiro a pisar no Brasil como artista do Cirque du Soleil e vou poder mostrar no s o meu trabalho, mas de certa forma cativ-los.
O circo sempre esteve na moda, no meu ponto de vista. Hoje a procura maior no graas ao Cirque du Soleil ou a mim, mas se voc tem vontade de fazer algo, v e faa. Se o circo, v procurar uma escola bacana, que oferea a oportunidade para iniciantes. No importa a idade que tu tenhas, se acrobacia, se palhao, se contoro, se com malabares. O circo infinito e no tem idade. A minha av tem 78 anos e eu dou duas laranjas pra ela e falo vai, avzinha, tenta fazer… Ela tenta! E se a minha av que tem 78 anos tenta, porqu as pessoas que esto com 30, 40, 50 ou mesmo 20 esto achando que esto velhas pra fazer algo?
Tem o Yuri (Medvedev) que um palhao que est com 65 anos eu acho.. V l e corra atrs!
Se eu estou sendo um modelo ou inspirao para isso, que bacana. Se depender de mim eu vou colocar o Brasil todo nas escolas de circo. Eu tenho vontade de abrir a minha escola. Talvez neste ano, no sei. Mesmo estando no Cirque du Soleil eu quero ter um espao meu, mas no sei se ser em So Paulo, no Rio de Janeiro, em Ribeiro Preto ou mesmo em Braslia. Creio que futuramente eu tenha uma sede em cada lugar.
O que espero de todas as escolas de circo que ofeream cursos bacanas, no sejam uma arapuca para ganhar dinheiro. Que seja uma escola que voc v visitar e ela te d cultura circense, que tenha bons profissionais circenses ou da rea acrobtica que no precisariam ser circenses, poderiam ser da rea de educao fsica ou da ginstica. Que cada ramo tenha um profissional bacana, no importa se ele seja circense ou no. Mas que tambm tenha uma pessoa que v ensinar postura corporal, cada um no seu ramo, e no uma pessoa que queira fazer tudo. Isso o gostoso, isso que o bacana, esse o meu conceito para as escolas de circo. Que no sejam uma arapuca para ganhar dinheiro, que sejam uma arapuca de conhecimento e de cultura circense, que no ensine s a dar cambalhota, mas que ensine a histria do circo. E se uma escola de circo que possa formar algum, que saia de l j falando outros idiomas tambm. Que o profissional saia pronto para encarar o mundo l fora. Isso que o legal.
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Esta apenas a primeira parte da entrevista. A continuao ser publicada dia 06/12/2007. Esperamos por voc!