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Luana Ouverney - A Head of Wardrobe mais eco-friendly do Cirque du Soleil


"Entre os tecidos e máquinas de costura da confecção do avô e a criatividade para desenvolver suas próprias roupas e acessórios, a niteroiense Luana Ouverney, ainda na infância, já demonstrava habilidade, talento e o caminho que seguiria: a moda.

Durante a formação em Designer de Moda trabalhou com equipes de criação para grandes marcas de roupas, atuou nos backstages de desfiles e lançou duas marcas, uma de acessórios e a outra na produção de vestuário por meio do reaproveitamento de tecidos.

Contudo, a oportunidade de unir todo o seu repertório criativo com uma gestão de reaproveitamento sustentável é o resultado de uma trajetória bem-sucedida há 5 anos em diferentes espetáculos da maior companhia circense do mundo.

Leia a seguir a entrevista completa da Head of wardrobe do Cirque Du Soleil, Luana Ouverney.

Cirque Brasil: Como surgiu o interesse pelo mundo da moda?

Luana Ouverney: O interesse por moda surgiu quando eu nem sabia de fato, o que era moda. Desde pequena, eu me diferenciei das minhas amigas, através do meu corte e cor de cabelo até minhas roupas. Sempre gostei de customizar o que vestia; rasgava e escrevia nos meus jeans, procurava comprar roupas de confecções locais, pois na época eram mais baratas do que as de marcas famosas, e feitas em pequena escala. Também cresci entre rolos de lycra na confecção de lingerie do meu avô, em Nova Friburgo – Interior do Rio de Janeiro - e sempre que meu pai fazia alguma viagem internacional, trazia umas roupas e acessórios coloridos para mim, os quais chamavam atenção na escola.

CB: Nos conte um pouco sobre a sua trajetória profissional até o Cirque du Soleil (formação, trabalhos realizados, ...)

LO: Minha trajetória começou virando alça de sutien na confecção de lingerie do meu avô e trabalhando em backstage de desfile de moda de lingerie, no interior do estado do Rio de Janeiro/Brasil. Durante minha formação de Design de Moda pela faculdade SENAI-CETIQT, sempre trabalhei para pagar pelo curso – fosse como assistente de criação de moda infantil/ juvenil e moda praia para a C&A ou como assistente de desenvolvimento de roupa de malha para Leader Magazine. Também tive duas marcas: uma de acessórios e a VITRO (foto ao lado), na qual eu fazia roupas através do reaproveitamento de tecidos que seriam descartados/ customizados de roupas vintage, e cheguei a comercializar nos Estados Unidos e Suíça além do Brasil, entre 2007 e 2010.

CB: Sabemos que os artistas são recrutados, em sua maioria, através de audições. Como funciona o recrutamento da equipe técnica? Como o Cirque du Soleil te recrutou?

LO: O Cirque tem um site de recrutamento onde toda e qualquer pessoa pode aplicar. Porém a forma mais certa de ser recrutado como técnico pela empresa é, ou trabalhando como local e se destacando entre a equipe permanente ou sendo indicado por alguém de dentro que conhece o seu trabalho. No meu caso, um puxou o outro. Porém para ambos, os candidatos devem preencher a ficha de inscrição online.

CB: Nos conte um pouco sobre a sua trajetória no Cirque (show e atividades desenvolvidas)

LO: Minha trajetória profissional no Cirque começou em 2010, quando o show Quidam estava no Rio de Janeiro e, eu apliquei para trabalhar como “costureira local”. Eu tinha acabado de voltar de um intercâmbio de seis meses nos EUA, o que foi crucial, pois um dos pré-requisitos era falar inglês. Trabalhei com a equipe de figurino durante um mês e mantivemos contato por uma rede social.

Em 2013, sim, apenas três anos depois, a chefe da equipe de figurino do Quidam entrou em contato comigo pela mesma rede social, me convidando para aplicar para o processo seletivo para trabalhar com a equipe de turnê do show. Fiz as três entrevistas e três meses depois estava voando para meu primeiro trabalho fixo com eles: assistente de figurino em turnê.

Em 2015, minha então chefe foi contratada para uma criação nova, o "Toruk - The First Flight", e propôs que eu aplicasse para o cargo dela. Fui selecionada e trabalhei como chefe de figurino do Quidam até o fechamento do show, no início de 2016. Nesse cargo, aprendi a gerenciar uma equipe internacional, a aproveitar as oportunidades para me destacar no que fazia, e tornei o departamento mais sustentável: reciclando, reutilizando, repensando certos descartes e servindo de exemplo para outros shows – o qual me rendeu a reputação da Head of Wardrobe mais eco-friendly na empresa!

"(...) TORNEI O DEPARTAMENTO MAIS SUSTENTÁVEL: RECICLANDO, REUTILIZANDO, REPENSANDO CERTOS DESCARTES E SERVINDO DE EXEMPLO PARA OUTROS SHOWS – O QUAL ME RENDEU A REPUTAÇÃO DA HEAD OF WARDROBE MAIS ECO-FRIENDLY NA EMPRESA!"

Com o fechamento do Quidam, fui transferida, temporariamente para o show Varekai, como chefe de figurino por seis meses. Nesse show, aprendi que tempo de empresa e experiência são irrelevantes, após ser escolhida para dirigir a equipe na qual duas das minhas assistentes haviam aplicado para o meu cargo – ambas com mais de 10 anos de empresa e 15 de experiência. Com elas também aprendi a ser forte, a exigir respeito e a escolher com quem trabalhar. Está aí o motivo de eu ter ficado no show por apenas seis meses.

Em 2017, quatro meses após estar afastada da empresa, fui convidada a ser chefe de figurino do show OVO, uma criação de inspiração brasileira, dirigida por Deborah Colker e cenografia assinada por Gringo Cardia - profissionais que sempre admirei. No OVO, me senti em casa; finalmente escolhi todas minhas assistentes a dedo, dando a mesma chance que um dia tive: contratando duas staffs locais e por fim, promovendo uma delas ao meu cargo, após um ano de show. O motivo pelo qual sai do OVO foi para a realização de um outro sonho: fazer parte de uma criação, o BAZZAR.

Luana (dir.) com o elenco de OVO

CB: Como foi a sua transição de Ovo para Bazzar? Como funciona essa mudança de show quando já se está dentro da Companhia?

LO: A mudança de um show para o outro é muito comum, pois a empresa preza em manter os funcionários que são competentes e se destacam em seu departamento e no show em geral. Sem dúvida, eu poderia ter continuado com o OVO até o Brasil (o que também era um sonho – portanto foi uma escolha muito difícil) já que estava tão feliz no mesmo e poderia ter aplicado para uma criação posteriormente. Porém fazer parte da criação do BAZZAR foi uma mudança de paradigma, pois além dele ser um dos shows mais “eco-friendly” do Cirque, o show foi desenvolvido exclusivamente para explorar novos mercados, tais como Índia e África, e essa oportunidade não aconteceria duas vezes, pois e única.

Criar o departamento de figurino desde o início – reaproveitando caixas de outros shows, criando um espaço dinâmico, trabalhar dentro do parque de diversões que é o Cirque e ter voz como pioneira e desenvolvedora, não teve preço. Assim como ter trabalhado com James Lavoi (figurinista) e ter tido a oportunidade de entender seu processo criativo e ter espaço para dizer que tipo de tecido, modelagem, cor e material funcionaria ou não a longo prazo.

CB: Bazzar é a sua primeira criação. Nos conte um pouco desse período no IHQ, suas descobertas, a equipe que trabalha com você.

LO: Trabalhar no IHQ sempre foi um sonho.... As descobertas são diárias; desde novos andares e salas no prédio até novas tecnologias para impressão, como por exemplo o que uma impressora 3D pode reproduzir. é um privilegio trabalhar com o melhor sapateiro, o melhor chapeleiro, o melhor figurinista e ver o orgulho que todos eles têm em trabalhar para essa fábrica de criatividade. Além disso, boa parte dos resíduos são reaproveitados...

A equipe que trabalhou em conjunto comigo foi imensa: o figurinista e duas assistentes, costureiros, cortadores, modelistas, sem contar as equipes de sapato, acessórios, perucas, desenvolvimento de tecido... na equipe de manutenção de figurino somos apenas duas, eu e minha assistente Alex Mancini e contrataremos 3 staffs locais em cada lugar que residirmos.

CB: Atualmente você é head of wardrobe em Bazzar, correto? Quais são as suas responsabilidades (conte-nos um pouquinho da sua função e atividades desempenhas)

LO: Correto. Resumindo, a head of wardrobe nada mais e que um mix de compradora, coordenadora, fiscal, mãe, costureira, cabeleireira, sapateira, maquiadora, faxineira e psicóloga! rs

Sou eu a responsável (fiscal) em manter a integridade dos figurinos e fica a meu critério junto ao diretor artístico, decidir se um figurino deve ser substituído por um novo ou não devido as lavagens, fricção com o palco dependendo do ato etc. Assim como checar se os artistas estão fazendo suas maquiagens (mãe/ maquiadora) conforme ela deve ser feita e, por vezes convence-los que os 4 kg que eles ganharam nas duas semanas de folga não fazem a mínima diferença no figurino (psicóloga). Mas se fizer, também tenho que ser apta a fazer os ajustes, caso necessário (costureira).

Também sou responsável por comprar tudo que você imaginar relacionado a figurino (compradora) – desde as meias que os artistas vestem, seus figurinos (que são feitos sob medida em Montreal), estoque de maquiagem, toalhas, lingerie, etc.

E não para por aí, também tenho que montar a carga horária da minha equipe local, delegar rotinas diárias durante o show e, no Bazzar, como somos apenas duas na equipe, se for preciso, tenho que costurar sapato, lavar roupa, consertar chapéus e fazer tranças embutidas nos artistas (sapateira, faxineira, chapeleira, cabeleireira); tem dias que me sinto como se estivesse no quadro “Se vira nos 30! ”

CB: Com o contato com diversos artistas e o mundo criativo do Cirque, aprendeu alguma nova habilidade (técnica/ artística)?

LO: Acredito que uma das maiores habilidades que desenvolvi foi a de aprender várias línguas, ainda que apenas 10 palavras em 20 línguas diferentes. Também aprendi que bom-senso não existe quando se trata de 25 línguas e culturas diferentes.

Em termos técnicos e artísticos, tentei pedalar uma bicicleta de palhaço e machuquei o cóccix e ao tentar fazer a German Wheel caí e machuquei o ombro. Mas gostei muito da corde lisse (talvez por ser sido o único no qual eu não me machuquei, mas me queimei, obviamente). Slackline também é bem bacana, mas eu prefiro deixar essas habilidades para os especialistas.

CB: Para você, o que diferencia Bazzar dos demais espetáculos do Cirque que já atuou?

LO: Muitas coisas diferenciam o Bazzar dos outros espetáculos; a começar pela ideia de trazer para o público a essência do que era o Cirque du Soleil no começo; afinal estamos indo para mercados que nunca ouviram falar do CDS.

Também pelo tamanho do show, já ideia inicial era trazer uma das primeiras tendas do Cirque (1988) a qual e menor do que o tamanho padrão, de volta a estrada.

O tamanho da equipe: 32 artistas (quase metade de uma cast normal de tenda).

As disciplinas do show, sendo apresentadas pelo Cirque pela primeira vez, tais como o Slackline, Pole indiano e o homem- fogo e o custo baixo e reaproveitamento de materiais e equipamentos, quando comparado as últimas criações tais como Volta e Luzia.

Luana (esq.) preparando os artistas de BAZZAR para foto da revista Cosmopolitan Magazine India

CB: Quais são as suas expectativas para a estreia de Bazzar, sendo esse um show que irá explorar um novo mercado para o Cirque du Soleil (Índia, Grécia, Oriente Médio...)

LO: As expectativas não poderiam ser maiores. Eu sempre me emociono toda vez que eu vejo o brilho nos olhos dos expectadores, muitos dos quais juntam dinheiro o ano inteiro para assistir ao show em ocasiões especiais como aniversario e natal.

Então imagina ver os olhos de crianças, sem nenhum privilegio e que nunca assistiram a algo parecido, terem a oportunidade de assistir ao show (através de ingressos doados pelo Cirque du Monde à entidades carentes na Índia); sem dúvida eu não conseguirei conter as minhas lágrimas!

"ENTÃO IMAGINA VER OS OLHOS DE CRIANÇAS, SEM NENHUM PRIVILÉGIO E QUE NUNCA ASSISTIRAM A ALGO PARECIDO, TEREM A OPORTUNIDADE DE ASSISTIR AO SHOW (...); SEM DÚVIDA EU NÃO CONSEGUIREI CONTER AS MINHAS LÁGRIMAS!"

Luana (dir.) e It'sa (esq.) - As brasucas em BAZZAR

CB: O que o público pode esperar de BAZZAR?

LO: A música é tão envolvente e os artistas e atos tão cativantes, que o público pode esperar sentir vontade de se levantar e se juntar a eles no palco! Bazzar é aquele tipo de show que você não quer que acabe e quando você se dá conta, já acabou e você quer assistir novamente. É enérgico, é colorido, é divertido, é o que todos deveriam esperar como primeira impressão do Cirque du Soleil.

SOBRE BAZZAR

Bem-vindo a um laboratório eclético de criatividade infinita, onde uma alegre companhia de acrobatas, dançarinos e músicos cria um espetáculo inspirador. Liderados pelo seu maestro, eles se unem para inventar um universo único e caprichoso. Em um lugar onde o inesperado é esperado, o colorido grupo reinventa, reconstrói e reinventa cenas vibrantes em um jogo artístico acrobático de ordem e desordem. Venha e reivindique seu lugar em meio a esse mercado de alegria e camaradagem criativa. Você pode achar que o final da história é realmente apenas o começo!

#BAZZAR

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